
Terá de haver um período de reflexão sobre aquilo que se passa em Portugal a nível das artes e da cultura.
O que será um país sem arte? Mais especificamente, o que o Jornal de Letras, Artes e Ideias aborda, o que será um país sem cinema? Um país que perde os seus principais financiamentos estatais para a produção de cinema nacional?
Várias pessoas ligadas ao cinema em Portugal tentaram responder e pareceu-me mais que evidente que, umas com mais optimismo, outras com menos, nenhuma sabe ao certo o que será de Portugal e do seu cinema. Sabem que há valores, não sabem como os desenvolver. Eles próprios ligados ao cinema, não se sabem multiplicar para chegar ao público nem sabem de que forma o público se pode também multiplicar para ver mais cinema produzido em português.
Eu sou aluno de cinema (audiovisual mais concretamente). Sinto-me intimidado, sinto-me com medo. Escolhi o meu curso porque é aquilo que gosto, é aquilo que gostava de estudar e trabalhar. Desenvolvo todos os dias o meu gosto pela arte que estudo, esforço-me por saber mais coisas, por ver mais, por ler mais, por ouvir e refletir mais sobre ideias, circunstâncias e sobre as coisas que se passam à minha volta. Esforço-me por gostar de cinema e assusta-me que o meu esforço seja algo inconsequente perante a situação incerta que nos espera.
No meu ponto de vista, os financiamentos estatais para o cinema em Portugal sempre foram medidas inconsequentes e mal aproveitadas, mal geridas. O FICA é um financiamento fantasma, nunca se desenvolveu para se consolidar. O ICA, que financia à 40 anos, encontra-se em débito crescente e os seus principais activos foram reduzidos, ou seja, também estamos defronte a uma bolsa exaurível. Resta-nos esperar pela Nova Lei do Cinema lançada este mês. Não sei do que será produto desta lei...
Ainda invocando a percepção que tenho das coisas, a solução não se vai encontrar inquirindo o governo daquilo que pode fazer e não faz. A solução está provavelmente na capacidade mecenática que os investimentos privados podem fazer em troca de retorno financeiro. Vejam o exemplo dos irmãos do Banco do Brasil, amantes da sétima arte que encontraram um equilíbrio entre o retorno financeiro na aposta à indústria cinematográfica do Brasil.
Podemos não contar com o estado, ou com as empresas privadas, ou com os mecenas que por aí andam. Mas podemos contar com nós próprios e com o nosso descernimento em apoiar a cultura em Portugal e apoiar não só os novos valores mas apoiar também a formação de um novo público no cinema, seja ele português ou não. Refiro-me a um novo público formado no bom cinema.
Ajudem a dinamizar a causa e a apelar à opinião pública daquilo que se passa. É importante.


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